Meu pai

O texto que hoje trago para o blog não se trata de um escrito novo; esse fica para a próxima semana. Um casal de primos meus, Fernando e Lúcia, não haviam lido o que eu escrevi sobre meu pai (eu e ele ao lado na foto), por ocasião da sua missa comemorativa pelos seus 60 anos (em março de 2002). Então, atendendo ao pedido deles, transcrevo as palavras que fiz para ele.
Estas são as palavras que dediquei ao meu pai:
"Foi Deus. Essa frase vocês podem pensar que tive a inspiração de um fado cantado por Amália Rodrigues, já que ele tanto gostava dela. Mas, não. Essa frase é a resposta às perguntas que vários amigos fizeram para mim há um tempo atrás.
De onde veio a força para encarar um momento desses, tão repentino? Foi Deus. Foi Ele quem me deu a força para superar a tristeza, a saudade, a ausência dessa pessoa alegre que tive a felicidade de ter como pai.
O tempo vai passando e vai ficando pior, mas tento procurar em minha família e especialmente em minha mãe a fé e a força para nossa caminhada.
Falar dele, hoje, ainda é difícil sem me emocionar. Somente agora, quatro meses depois, consigo escrever algumas linhas sobre ele.
Nossa relação não foi de pai e filha, todos sabem. Mas, ele foi o pai que conheci e que procurou, com seu jeito, me amar, aliás, procurou não, ele me amou, se preocupou com minha vida. Só que nunca falava pra mim, não era seu jeito. Eu ficava sabendo do seu amor pelos amigos. Era assim que eu sabia do seu amor.
Meu pai era uma figura ímpar, com seu jeito alegre, com seu modo estranho de encarar a vida. É claro tinha muitos problemas, mas hoje não é dia de falar das tristezas dele, mas das alegrias que ele nos deu.
Lembro do ano passado, uma das poucas vezes que ele se mostrou orgulhoso da filha que tinha, foi quando troquei de carro. Disse que eu tinha “metido as caras” e arriscado e que ele, naquele momento, estava admirado. E muitos momentos que me lembro dele, alegres e tristes. Ele era uma criança grande.
Ele viveu a vida como queria, ninguém conseguia colocar rédeas nele. Podia nem estar frio o suficiente, mas ele saia de sobretudo, chapéu, luvas e por aí vai. E quando ia pra São Paulo? Usando as palavras do Zé Roberto: parecia “um empresário da Fiesp”. A verdade é que ele estava muito mais elegante que eles da Fiesp.
Quando fomos assistir Bibi Ferreira cantando Amália conheci um Zé Roberto, um pai, que em 34 anos não tinha visto. Parecia uma criança, cada vez que ela começava a cantar. Sem querer, fiquei entre ele e minha mãe, como pulava, cantava, batia palmas. Naquele dia, vi meu pai, pela primeira vez, desde os meus 15 anos, feliz da vida, como se mais nada existisse além daquela atriz maravilhosa em sua frente, cantando suas músicas. Isso, talvez, tenha sido um dos motivos pelos quais escolhi Coimbra.
Para alguns pode ter sido uma partida rápida demais, mas ele sempre foi assim. Tudo para ele tinha que ser na hora, imediato e sua partida não poderia ser mais adequada a sua pessoa. Chegou a hora de fechar as cortinas, encerrar o espetáculo da sua vida e voltar pra junto de Deus.
Quantos planos ele ainda tinha? Vários, um deles era a festa de 60 anos. Nossa! Quantas mesmos ele ia fazer? Três, quatro. Já nem me lembro. Era um sonhador. Havia visitado Paris mais de dez vezes, Portugal então, eu perdi as contas. Como conhecia os lugares sem nunca ter visto!!!
Já nem falo das bengalas, cada peça tinha sua história. Conhecia de tudo um pouco, e um pouco de tudo.
Ah! E os rodopios das valsas pelo salão?!!! Nossa, quantas vezes não me deixou tonta. Era uma alegria dançar com ele, parecia que ele sentia a música. Lembro-me a última vez que dancei com ele. Acho que foi em junho ou julho. Já andava meio cansado, não agüentava muito. Mas, ainda tinha a mesma vontade de dançar que sempre teve.
Briguei muito com ele e vice-versa. Queria que ele visse a vida como ela realmente é, não as ilusões que ele gostava de viver. Queria que ele desse valor a coisas mais importantes. Mas, hoje vejo que, se ele me desse ouvidos, ele seria uma pessoa normal, não seria mais única, ímpar. Ele não seria o José Roberto, o Zé, o Beto. Não me arrependendo de quase nada. Só de nunca ter dito em vida o quanto eu o amava. A gente só sabe disso quando alguém próximo vai embora. Eu fui felizarda de poder ter meu pai comigo durante 34 anos. Queria vê-lo avô, mas isso não foi possível.
Fomos todos felizes por ter convivido com ele.
E hoje, depois de quatro meses, agradeço a todos os amigos, que vi que não eram só amigos de meu pai e minha mãe, mas meus também, quero agradecer pela grande força que nos deram. Como ele era uma pessoa querida e amada.
Agora nos resta lembrarmos dos momentos felizes que tivemos juntos, sem choro, só alegria, porque assim podemos continuar com a nossa vida, nossos planos e nossos sonhos que ainda não foram realizados.
E se tenho essa força hoje, é graças à família que tenho hoje: Pureza, minha segunda mãe, é aquela que me protege, me mima. Tia Yolanda, é a minha confidente quando vejo que minha mãe está com problemas. A Dani, essa pessoa maravilhosa que é a minha irmã que adotei do fundo do meu coração e é mais ajuizada que eu, e o noivo Samuel, sempre com uma palavra pra nos alegrar. Meu namorado, amigo, companheiro, Régis, que muitas pedras atravessamos, muitas discussões tivemos no passado e hoje ele tem me dado força, carinho, amor e me faz voltar à realidade da minha vida, alertando de que eu preciso continuar vivendo e buscando minhas realizações e meus planos, enfim. E por final, aquela que me ensinou que Deus é amor, que me ensinou que a Fé é que nos da força e não nos deixa cair, que me ensinou a amar, e que é meu mais importante porto seguro, sem ela não seria o que sou hoje: minha mãe, que eu admiro muito, que amo demais e quem me ensinou aos trancos e barrancos a amá-lo do jeito que ele era."
De onde veio a força para encarar um momento desses, tão repentino? Foi Deus. Foi Ele quem me deu a força para superar a tristeza, a saudade, a ausência dessa pessoa alegre que tive a felicidade de ter como pai.
O tempo vai passando e vai ficando pior, mas tento procurar em minha família e especialmente em minha mãe a fé e a força para nossa caminhada.
Falar dele, hoje, ainda é difícil sem me emocionar. Somente agora, quatro meses depois, consigo escrever algumas linhas sobre ele.
Nossa relação não foi de pai e filha, todos sabem. Mas, ele foi o pai que conheci e que procurou, com seu jeito, me amar, aliás, procurou não, ele me amou, se preocupou com minha vida. Só que nunca falava pra mim, não era seu jeito. Eu ficava sabendo do seu amor pelos amigos. Era assim que eu sabia do seu amor.
Meu pai era uma figura ímpar, com seu jeito alegre, com seu modo estranho de encarar a vida. É claro tinha muitos problemas, mas hoje não é dia de falar das tristezas dele, mas das alegrias que ele nos deu.
Lembro do ano passado, uma das poucas vezes que ele se mostrou orgulhoso da filha que tinha, foi quando troquei de carro. Disse que eu tinha “metido as caras” e arriscado e que ele, naquele momento, estava admirado. E muitos momentos que me lembro dele, alegres e tristes. Ele era uma criança grande.
Ele viveu a vida como queria, ninguém conseguia colocar rédeas nele. Podia nem estar frio o suficiente, mas ele saia de sobretudo, chapéu, luvas e por aí vai. E quando ia pra São Paulo? Usando as palavras do Zé Roberto: parecia “um empresário da Fiesp”. A verdade é que ele estava muito mais elegante que eles da Fiesp.
Quando fomos assistir Bibi Ferreira cantando Amália conheci um Zé Roberto, um pai, que em 34 anos não tinha visto. Parecia uma criança, cada vez que ela começava a cantar. Sem querer, fiquei entre ele e minha mãe, como pulava, cantava, batia palmas. Naquele dia, vi meu pai, pela primeira vez, desde os meus 15 anos, feliz da vida, como se mais nada existisse além daquela atriz maravilhosa em sua frente, cantando suas músicas. Isso, talvez, tenha sido um dos motivos pelos quais escolhi Coimbra.
Para alguns pode ter sido uma partida rápida demais, mas ele sempre foi assim. Tudo para ele tinha que ser na hora, imediato e sua partida não poderia ser mais adequada a sua pessoa. Chegou a hora de fechar as cortinas, encerrar o espetáculo da sua vida e voltar pra junto de Deus.
Quantos planos ele ainda tinha? Vários, um deles era a festa de 60 anos. Nossa! Quantas mesmos ele ia fazer? Três, quatro. Já nem me lembro. Era um sonhador. Havia visitado Paris mais de dez vezes, Portugal então, eu perdi as contas. Como conhecia os lugares sem nunca ter visto!!!
Já nem falo das bengalas, cada peça tinha sua história. Conhecia de tudo um pouco, e um pouco de tudo.
Ah! E os rodopios das valsas pelo salão?!!! Nossa, quantas vezes não me deixou tonta. Era uma alegria dançar com ele, parecia que ele sentia a música. Lembro-me a última vez que dancei com ele. Acho que foi em junho ou julho. Já andava meio cansado, não agüentava muito. Mas, ainda tinha a mesma vontade de dançar que sempre teve.
Briguei muito com ele e vice-versa. Queria que ele visse a vida como ela realmente é, não as ilusões que ele gostava de viver. Queria que ele desse valor a coisas mais importantes. Mas, hoje vejo que, se ele me desse ouvidos, ele seria uma pessoa normal, não seria mais única, ímpar. Ele não seria o José Roberto, o Zé, o Beto. Não me arrependendo de quase nada. Só de nunca ter dito em vida o quanto eu o amava. A gente só sabe disso quando alguém próximo vai embora. Eu fui felizarda de poder ter meu pai comigo durante 34 anos. Queria vê-lo avô, mas isso não foi possível.
Fomos todos felizes por ter convivido com ele.
E hoje, depois de quatro meses, agradeço a todos os amigos, que vi que não eram só amigos de meu pai e minha mãe, mas meus também, quero agradecer pela grande força que nos deram. Como ele era uma pessoa querida e amada.
Agora nos resta lembrarmos dos momentos felizes que tivemos juntos, sem choro, só alegria, porque assim podemos continuar com a nossa vida, nossos planos e nossos sonhos que ainda não foram realizados.
E se tenho essa força hoje, é graças à família que tenho hoje: Pureza, minha segunda mãe, é aquela que me protege, me mima. Tia Yolanda, é a minha confidente quando vejo que minha mãe está com problemas. A Dani, essa pessoa maravilhosa que é a minha irmã que adotei do fundo do meu coração e é mais ajuizada que eu, e o noivo Samuel, sempre com uma palavra pra nos alegrar. Meu namorado, amigo, companheiro, Régis, que muitas pedras atravessamos, muitas discussões tivemos no passado e hoje ele tem me dado força, carinho, amor e me faz voltar à realidade da minha vida, alertando de que eu preciso continuar vivendo e buscando minhas realizações e meus planos, enfim. E por final, aquela que me ensinou que Deus é amor, que me ensinou que a Fé é que nos da força e não nos deixa cair, que me ensinou a amar, e que é meu mais importante porto seguro, sem ela não seria o que sou hoje: minha mãe, que eu admiro muito, que amo demais e quem me ensinou aos trancos e barrancos a amá-lo do jeito que ele era."
Estas palavras, como comentei acima, foram escritas em 2002; e, de certo que, desde àquela época, muitas coisas aconteceram. Porém, vale a lembrança, a qual espero que gostem e possam recordar a alegria, a qual era a marca registrada do homem que era (e sempre será) meu pai.

